Um clube em dois minutos: Standard Liège

by Paulo Anunciação
in O Jogo (23 Abr 2008)

O Royal Standard de Liège foi fundado em 1898 por um grupo de estudantes do colégio de Saint-Servais, na cidade de Liège. O nome foi inspirado no Standard A.C., de Paris, um clube muito popular na altura. O nome sofreu ligeiras variações ao longo das décadas (era Standard F.C. em 1900). Em 1996, o Standard de Liège fundiu-se com o falido RFC Seraing. O clube joga no estádio Maurice Dufrasne, no bairro industrial de Sclessin, em Liège. O recinto, com capacidade para 30.023 espectadores, é conhecido popularmente como o “Inferno” ou o “Caldeirão de Sclessin” devido ao apoio ruidoso dos adeptos locais. Dufrasne foi presidente do clube durante 22 anos (1909-31) e um dos pioneiros do estádio, cuja construção se iniciou em 1909. O recinto sofreu diversas remodelações de forma a ser utilizado no Euro 2000.

No domingo, o Standard de Liège, treinado por Michel Preud’homme, bateu o Anderlecht (2-0) e comemorou a conquista do nono título nacional – o primeiro título desde 1983. Apenas três clubes belgas têm mais títulos nacionais do que o Standard. O clube conquistou igualmente cinco Taças da Bélgica. Os dois golos de domingo foram marcados pelo congolês Dieumerci Mbokani Bezua – um jovem avançado que a imprensa belga gosta de comparar a Didier Drogba – perante mais de 30 olheiros estrangeiros.

Os jogadores e adeptos do Standard de Liège são popularmente conhecidos como “Les Rouches” – os “encarnados” (na pronúncia local, a palavra “rouge” soa como “rouche”). Os equipamentos do Standard foram sempre encarnados e brancos. Apesar de Liège pertencer à Valónia, francófona, o Standard é um clube verdadeiramente nacional, com adeptos, igualmente, na Flandres. O actual primeiro-ministro belga, Yves Leterme – um defensor da autonomia flamenga – é um adepto ferrenho do clube.

O Standard de Liège é o clube belga com maiores ligações a Portugal, fruto, em grande parte, da influência do ex-agente – e actual vice-presidente do clube – Luciano D’Onofrio. Mais de dez portugueses vestiram a camisola do clube, incluindo Norton de Matos – o pioneiro, nas décadas de 1978/79 a 1980/81 – e outros internacionais, como Dimas, Sérgio Conceição, Folha, Sá Pinto ou Jorge Costa. Conceição (2004/07) foi capitão da equipa e é o único português que integra a lista oficial de “lendas” do clube. Em 2005, ele foi eleito como o melhor jogador da liga belga. No sentido inverso, vários ex-jogadores do Standard – como Demol, Preud’homme, Enakarhire, Niculae ou Mpenza – brilharam no futebol português.

Em 1982 e 1983, a equipa do Standard de Liège – que incluía estrelas como Preud’homme, Gerets, Haan, Vandersmissen ou Tahamata – conquistou dois campeonatos belgas e chegou à final da Taça das Taças. Essa “equipa maravilha”, treinada por Raymond Goethals, está associada, igualmente, à página mais negra da história do clube. Em Fevereiro de 1984, uma investigação de âmbito fiscal descobriu um caso de suborno ocorrido poucos dias antes daquela final europeia (que o Standard acabaria por perder frente ao Barcelona). A pedido de Goethals, o Standard pagou a diversos jogadores do Waterschei para “levantar o pé” no último jogo do campeonato. A investigação de 1984 terminou com várias multas e suspensões a treinadores e jogadores. Goethals deu a volta à suspensão da federação belga e emigrou para Portugal – trabalhou no Vitória de Guimarães em 1984/85.

O caso de suborno – ainda hoje conhecido como “L’Affaire” – abalou profundamente o prestígio e as estruturas do clube. Ao longo das duas décadas seguintes, o Standard conquistaria apenas uma Taça da Bélgica (1993). O clube foi transformado em sociedade anónima em 1988. Teve problemas financeiros graves e conheceu uma sucessão de patrões ou investidores diferentes, como o milionário norte-americano de origem sérvia Milan Mandaric (posteriormente proprietário do Portsmouth, na Inglaterra). Em 1998, D’Onofrio – associado ao milionário francês Robert Louis-Dreyfus – passou a controlar o clube. Luciano D’Onofrio foi “manager” do FC Porto na segunda metade da década de 80 e continua a gozar de relações privilegiadas com o presidente Pinto da Costa. Nos últimos anos, o ex-agente sofreu quatro condenações judiciais aplicadas por tribunais franceses, incluindo multas, penas de prisão e proibição de exercer a profissão. A justiça belga continua a investigar um eventual caso de fraude e branqueamento de capital envolvendo transferências de jogadores do Standard de Liège.

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