Francisco Gato, carrilhanista


© PAULO ANUNCIAÇÃO
in Evasões (Nov 1999)

Francisco José Alves Gato, ou Xico Gato, foi durante muito tempo o único carrilhanista do país. Um autodidacta e amador que continua a ser a alma do carrilhão de Mafra.

O palácio de Mafra é um saco cheio de estatísticas assustadoras, com as suas 5200 portas, 2500 janelas, 48 milhões de cruzados de orçamento e um “exército” de mais de 50 mil operários (1383 morreram em acidentes de trabalho) que ali laboraram ao longo de 17 anos. Imponente, mas também frio e pesado, o palácio-convento é um colosso rectangular que não deixou de impressionar Byron: “[O palácio] É o orgulho de Portugal, como poderia ser de qualquer país, quanto a magnificência sem elegância”, escreveu ele. Fruto da extravagância do rei D. João V, que queria celebrar o nascimento de uma filha (mais tarde ela seria rainha de Espanha), Mafra guarda mais de uma centena de sinos nas suas duas torres – que se saiba, trata-se da maior concentração de badalos em todo o mundo. Cada torre tem nove sinos mais um carrilhão de 53 sinos, afinados, que todos os domingos à tarde podem ser ouvidos na vila. “Um milhão, apenas? Tão pouco? Levo dois!”, terá dito o excêntrico monarca português quando os flamengos de Antuérpia e de Liège lhe enviaram o orçamento para um carrilhão: um milhão de cruzados, uma verdadeira fortuna em ouro e diamantes do Brasil. O mafrense Francisco José Alves Gato foi durante muito tempo o único carrilhanista do país. Actualmente três outras pessoas sentam-se, com regularidade, em frente dos complicados teclados, semelhantes aos dos pianos, que fazem actuar os badalos e extraem a música mais original daquele conjunto de instrumentos. Mas Xico Gato, de 54 anos, “autodidacta e amador”, como ele diz, continua a ser a alma do carrilhão de Mafra.

Quantos carrilhanistas há no mundo todo?

Para aí uns 300, dos quais nem cinco por cento são mulheres. A grande parte está concentrada na Europa, essencialmente nos Países-Baixos. Na Bélgica e na Holanda qualquer cidade tem um carrilhão, ou melhor, um “carrilhinho”. O carrilhão de Mafra tem 53 sinos (inicialmente tinha 47) e o primeiro, também conhecido por “bordão”, pesa 11 toneladas, sozinho. Os sinos deles, todos juntos, pesam oito.

Quanto pesam os sinos de Mafra na totalidade?

Ao todo são mais de 180 toneladas.

Como é que este carrilhão veio parar a Mafra?

A história dos carrilhões é muito antiga. A forma sineira foi descoberta há 5000 anos, no norte da Pérsia. Era um corpo feminino em que a saia fazia de sino e as pernas de badalo. Na China, há 3500 anos, surgiu o primeiro sino de bronze, tocado por fora, e os primeiros carrilhinhos, com sete sinos. Esta arte começou a expandir-se e presume-se que foram os celtas que trouxeram o sino para o Ocidente. Depois, o sino começou a ser usado pelas senhoras ocidentais, como marca de distinção social. Elas punham um guizo na lapela e ficava a saber-se, dessa forma, que elas eram de uma classe superior. Mais tarde começam a usar-se os sinos como forma de afugentar os maus espíritos – nos funerais, por exemplo. Fazia-se isso tanto na China como na Europa. A própria origem da palavra – sino deriva de “signu”, que quer dizer símbolo ou sinal – indica que os sinos eram sinais, neste caso, de cristandade. Os pregadores, antigamente, andavam com sinos. Depois começam a aparecer sinos cada vez maiores, para avisar as pessoas em caso de guerra ou de serviços religiosos. E na Idade Média, finalmente, começam a surgir os primeiros músicos interessados em fazer música com sinos. O primeiro carrilhão do mundo nasceu em Antuérpia, em 1480. Era muito complicado. É difícil fazer um sino, porque se o som não é optimizado o carrilhanista pode enlouquecer na torre.

A sério?

Verdade. Houve vários que se atiraram da torre por não conseguirem conviver com a falta de qualidade do som. Aconteceu, por exemplo, com um carrilhanista de Lyon, em França.

Quando é que os carrilhões chegaram a Portugal?

O rei D. João V passeou muito pela Europa, em 1720. Ele era um amante da música e prestava muita atenção ao que se passava, neste campo, nos outros países. Quando viu o primeiro carrilhão ficou logo fascinado. O palácio de Mafra, nessa altura, estava em construção. Era previsto pôr sinos nas torres, mas ele decidiu colocar carrilhões. Um em cada torre, por isso é que são dois.

Onde é que os carrilhões foram fabricados?

O rei pediu informações sobre quem seria o melhor carrilhanista da altura. Porque ele queria um carrilhão a condizer com a imponência do palácio. Naquela época era Melchior de Haze. E D. João V contactou-o. Pediu sinos com grande tonelagem, o orçamento era de 400 contos/ouro. Os carrilhões são de 1730 e a sua construção tem a assinatura do engenheiro Willem Witlockx. Eu diria que ele está para o carrilhão como Stradivari está para o violino.

Pode tocar-se qualquer melodia no carrilhão?

Quase todas as melodias vão bem, mas tem de escolher-se um repertório que condiga com o porte do carrilhão. Adapta-se bem à música clássica, à música composta para cravo e à própria música popular portuguesa. Há música belga e holandesa escrita especialmente para carrilhão. O meu pai também tinha duas ou três adaptações. Eu tenho mais de 30 músicas compostas de propósito para carrilhão. Estão registadas e arquivadas no palácio.

Tocar carrilhão magoa as mãos e faz calos. Sai música, é certo, mas é preciso tocar-se a murro e a pontapé. O meu pai tinha-me avisado: “Filho, prepara-te para sofrer com o carrilhão”. E ele tinha razão

Francisco José Alves Gato

Quais são as peças musicais que mais gosta de tocar no carrilhão?

Fado. O fado e as guitarradas funcionam muito bem no carrilhão. Também gosto muito do compositor Carlos Seixas.

Porque é que Mafra tem dois carrilhões? Alguma vez tocaram ao mesmo tempo?

Não, isso é impossível porque eles estão desafinados um com o outro. O carrilhão da torre norte nem sequer funciona, toca-se apenas o da torre sul. O da torre norte está todo desmantelado e mais ou menos abandonado. É um carrilhão mesmo mau e toca só para os mortos. Às vezes eu estou a tocar carrilhão e começam os sinos a tocar – porque os funerais não esperam, não é? – e eu ralho com eles. Não custava nada avisar-me com antecedência.

Toco por paixão, por amor a esta arte. Habituei-me a ouvir o carrilhão quando ainda estava na barriga da minha mãe

Francisco José Alves Gato

Quanto é que vale o carrilhão de Mafra?

Não tem valor. Quem fosse construir, agora, um carrilhão como este teria de gastar mais de um milhão de contos [quase cinco milhões de euros]. Mas este carrilhão tem um valor histórico, cultural e emocional que é impossível de calcular.

Quantos carrilhões no mundo inteiro têm a mesma estrutura do de Mafra?

Há um em Nova Iorque, na igreja de Riverside, que até é maior do que o de Mafra. Foi comprado pelos Rockefellers, na maior fundição do mundo. Tem um um baixo com 20 toneladas. Eu já o toquei… Bem, é mais pesado que o de Mafra, mas o nosso é melhor.

Quantos carrilhões existem em Portugal?

Os dois de Mafra e, agora, um na Torre dos Clérigos, no Porto, que foi comprado aos holandeses. O de Fátima foi desmantelado.

Quem é que toca o carrilhão do Porto?

As mesmas quatro pessoas que tocam em Mafra. Sempre que vou ao Porto peço para tocar. Mas não é a mesma coisa.

Não há amor como o primeiro…

Claro. Até os belgas e os holandeses ficam fascinados. Qualquer carrilhanista diz que o carrilhão de Mafra é uma delícia.

Como é que um carrilhão funciona?

Tem os sinos, o teclado, os tirantes e toca-se com os pés e a parte exterior da mão, de punho fechado ou com os dedos abertos. Podem tocar-se sete sinos ao mesmo tempo. Mas é importante tocar-se devagar para se perceber bem.

Há vários modos de tocar o carrilhão?

Há a maneira batida, que é holandesa e não faz os «vibratos». A belga usa mais «vibratos». E há a minha. Na associação dos carrilhanistas da Europa dizem que há um carrilhanista no sul que toca de uma forma estranha – sou eu.

Qual é o carrilhanista que mais admira?

O meu pai.

Qual é a forma correcta: «carrilhanista», «carrilhanor» ou «carrilhador»?

Antigamente dizia-se «carrilhanor». Agora a pessoa que toca o carrilhão é o «carrilhanista». Mas eu não toco por profissão ou por dever de ofício. Toco por paixão, por amor a esta arte. Habituei-me a ouvir o carrilhão quando ainda estava na barriga da minha mãe. O meu pai – que também se chamava Francisco Gato – tocava todos os domingos. E eu ia sempre com ele para a torre. Isto foi quando eu tinha cinco, seis anos. Habituei-me, tal como toda a população de Mafra, a ouvir o carrilhão enquanto se comia pevides na praça. Visualizei de tal maneira a forma de tocar que um dia estava na escola – tinha oito anos, mais ou menos – e comecei a tamborilar na carteira, com as mãos. O carrilhão é tocado com as mãos e com os pés, tem um teclado superior e um outro em baixo. A professora perguntou-me o que é que eu estava a fazer. «Estou a tocar carrilhão!», disse eu. Ela expulsou-me da sala. Mas nem isso demoveu toda a minha vontade de vir a ser carrilhanista. Nem mesmo quando o meu pai foi demitido, em 1957.

Porque foi demitido? O que aconteceu?

Foi uma espécie de trama. A pessoa que tocava antes dele abandonou o carrilhão de Mafra para ir para os Açores. Quando voltou vinha desempregado e sindicalizou-se. Como o meu pai não era sindicalizado, foi vítima de uma patifaria inqualificável. É verdade que ele não tinha carteira profissional, mas tocava em Mafra e em Fátima e era carrilhanista há dez anos consecutivos, com contrato assinado pelo Ministério das Finanças. Quando o meu pai foi ao sindicato, eles viram que ele tinha descoberto a marosca e disseram-lhe que tinha de fazer um exame para obter a carteira profissional.

Foi nessa altura que você decidiu aprender a tocar?
Foi mais tarde, em 1966. Estava no Instituto Superior Técnico a tirar Engenharia quando li no jornal que a Fundação Calouste Gulbenkian, aproveitando a presença de um mestre belga no nosso país, abrira um concurso público para seleccionar candidatos a bolsas de estudo na Bélgica. Exigiam o 7º ano do Conservatório e disciplina de piano ou órgão.

Você tinha essas qualificações?

Não. Tinha apenas o 5º ano do Conservatório. Mas era filho do meu pai…

E isso chegou?

Ajudou muito. A princípio não queriam deixar inscrever-me porque não tinha anos suficientes de Conservatório. Mas quando eu disse que era filho do Xico Gato o caso mudou logo de figura. Consegui a bolsa, juntamente com outros oito. Mas seis desistiram logo, porque aquilo magoa as mãos e faz calos. Sai música, é certo, mas é preciso tocar-se a murro e a pontapé. No princípio usava umas luvas especiais, mas depois senti a falta do contacto físico da mão com a tecla. No teclado antigo, em Mafra, chegava a perder dois a três quilos por concerto. É o carrilhão mais pesado da Europa e fazia-me suar que nem um louco.

Como é que se aprende a tocar carrilhão?

Nas escolas de carrilhão na Bélgica e na Holanda – as únicas reconhecidas no mundo inteiro – pensou-se num «carrilhinho», ou seja, um simulador de carrilhão. Trata-se de um teclado de estudo, que reproduz fielmente o do carrilhão. Uma réplica em que o som é produzido por marimbas metálicas e, inclusive, tubos ou sinos pequenos. Em princípio, os carrilhanistas deveriam ter esse simulador em casa, para preparar as pautas antes de ir para a torre. Aqui, não. Havia teclados de estudo, mas estavam fora de serviço há muito tempo. Eram peças de museu. Por isso fui directamente para a torre, comecei a tocar sozinho. De pés e mãos. Mas depois cancelaram-me a bolsa.

Porquê?

Nessa altura eu tinha 20 anos e estavamos no auge da guerra colonial. O Estado pensou que eu estava a querer fugir ao serviço militar. Cancelaram tudo. O meu pai já tinha avisado: «Filho, prepara-te para sofrer com o carrilhão».

Porque é que ele disse isso? É uma espécie de sina?

Ele tinha razão. Abandonei o carrilhão e fui para a Força Aérea e, depois, para a TAP. Agora estou reformado dos aviões. Mas depois da morte do meu pai vieram ter comigo. A Câmara de Mafra, através do departamento de Turismo, contratara um francês, que adoeceu. Eu era o único português disponível. Estava muito cru, mas o novo conservador do palácio chamou-me e mandou-me logo para a torre, para tocar. O carrilhão estava muito mal conservado, a cair aos pedaços. Eu tocava e as peças caíam. Tinha pouco tempo porque ainda trabalhava como piloto da TAP. Mas ganhei alguns calos. Mais tarde a Câmara decidiu que ninguém tocava no carrilhão. Era um contrasenso. Pensei logo no meu pai. Como ele tinha razão: lá estou eu a sofrer outra vez com o carrilhão! Mais um abandono! Foi só em 1983, com a criação do Ministério da Cultura, que se começou a dar atenção ao palácio e a tudo o mais que era património nacional. Havia outra sensibilidade. Nomearam um director para o palácio. Depois de algum tempo a contactar com as realidades do convento, ele percebeu que o carrilhão era importante. Mandou-me chamar. Eu contei-lhe esta história toda. E ele garantiu-me que desta vez ia ser diferente. Começou a pensar-se numa recuperação. E eu comecei a tocar o carrilhão. O amor era muito grande.

Nunca se arrependeu?

Nunca. Tive vários dissabores, é certo, mas o meu amor pelo carrilhão era superior a tudo o resto.

Alguma vez chorou a tocar carrilhão?

Muitas vezes. Por razões familiares e pessoais e, também, quando toquei quando grandes amigos meus faleceram. É engraçado, aliás, ver a reacção das pessoas que visitam o carrilhão, antes dos concertos de domingo: umas choram, outras riem. Em geral ninguém fica indiferente.

Teve alguma situação embaraçosa à frente do carrilhão?

Em 1985 aconteceu uma desgraça. Estava a tocar por ocasião do Dia Mundial da Música, em 1 de Outubro. A torre estava cheia de VIPs e de imprensa. O suporte do terceiro sino da série – pesa cerca de dez toneladas – partiu-se, o sino embateu na viga de madeira, estremeceu tudo e eu tive de parar de repente. Os holandeses fizeram o levantamento total dos problemas do carrilhão e apresentaram um relatório. Era tão vergonhoso que o Estado teve de mandá-lo restaurar em 1986. Foi inaugurado em 1987.

O povo de Mafra gosta de ouvir o carrilhão?

Gosta. Mas tal é o hábito que só dá pelo carrilhão quando eu não posso tocar, por algum motivo. Mas actualmente há mais gente a tocar.

O futuro do carrilhão de Mafra está garantido?

Neste momento penso que sim. Oficialmente existem dois carrilhanistas, mais duas raparigas – duas irmãs – com uma paixão enorme pelo carrilhão. Elas têm muito apoio do pai e estão a aprender. Uma delas, aliás, está já na Bélgica.

Não se pode aprender em Portugal?

Mafra poderia ter todas as condições para criar uma escola portuguesa de carrilhão. Existe imensa gente que gostaria de aprender a tocar e que, de momento, se vê obrigada a ir para a Holanda ou para a Bélgica. Falta a vontade política. Até temos um mestre com formação, que poderia dar lições. Mas as avenças são tão precárias que ele precisa de ganhar dinheiro com outras coisas.

Quanto é que você ganha?

Recebemos 46 contos [229 euros] líquidos, cada um.

Isso é que tocar por paixão!

Muita paixão.

Um pensamento sobre “Francisco Gato, carrilhanista

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